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  • A festa baiana Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos de Lençóis, BA, registrada como Patrimônio Cultural do Brasil devido à sua importância.
  • A celebração, com mais de 150 anos, mescla elementos do catolicismo popular, religiões de matriz africana e cultura garimpeira local.
  • Diferente de outras festas, a de Lençóis tem caráter alegre, de fé e agradecimento, e não penitencial, como as demais do país.
  • O Senhor dos Passos em Lençóis é visto como protetor dos garimpeiros, que carregam o fardo da vida, e não como Cristo sofredor.
  • A festa celebra a chegada da imagem do padroeiro, com louvor e alegria, diferente do tom contrito das celebrações da Paixão.
  • A devoção surgiu em Portugal no século 16, trazida ao Brasil pelas irmandades, e iniciada em Lençóis no século 19.
  • A festa teria começado em 1852 com a chegada da imagem encomendada em Portugal por negociantes de diamantes.
Foto: dossiê do registro/Iphan
Foto: dossiê do registro/Iphan

Uma manifestação cultural viva, vibrante e que funciona como ponte religiosa, cultural e histórica entre várias gerações. Assim pode ser classificada a Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos de Lençóis (BA), registrada na última semana, como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão aconteceu durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro (RJ).

A Festa acontece há mais de 150 anos, entre 23 de janeiro e 2 de fevereiro, e é uma das mais importantes expressões culturais da cidade de Lençóis, localizada na Chapada Diamantina. A celebração mistura elementos do catolicismo popular, das religiões de matriz africana e da cultura garimpeira, que marcou a formação do município.

Sobre a festa

Diferente de outras festas do Senhor dos Passos no Brasil, geralmente mais penitenciais e voltadas ao sofrimento de Cristo, a festa em Lençóis tem um caráter alegre e celebrativo, sendo um momento de fé, agradecimento e encontro da comunidade.

“Em Lençóis, o Senhor dos Passos não é visto como o Cristo que sofre e é castigado como condenado ao suplício da cruz, mas como aquele que protege os garimpeiros e carrega, como eles, o fardo de uma vida dura, aqui representada pela cruz”, observou a relatora do parecer técnico, Desirée Tozi, que destacou também o caráter festivo da celebração.

Diferentemente das mais conhecidas celebrações do Senhor dos Passos existentes no país, como as de Florianópolis (SC), registrada como Patrimônio Cultural do Brasil em 2018, e as de São Cristóvão (SE), Recife (PE), Olinda (PE), Oeiras (PI), Pirenópolis (GO) e Belém (PA), a de Lençóis não ocorre durante a Quaresma como parte das celebrações vinculadas à Paixão de Cristo.

Celebra, festeja e comemora a chegada da imagem do padroeiro dos garimpeiros à cidade, sendo, assim, um evento de louvor, que se desenrola num tom alegre e de congraçamento bem distinto do tom contrito, e mesmo fúnebre, das celebrações vinculadas à Paixão.

Irmandades religiosas

A devoção do Senhor dos Passos surge em Portugal no século 16, com as irmandades religiosas exercendo o papel de mobilizar pessoas para atividades devocionais e de atenção para com os desvalidos. São essas mesmas organizações que trazem a devoção ao Brasil nos primeiros tempos da colônia, mas, em Lençóis, cidade que surge e se desenvolve no contexto da mineração de diamantes no sertão da Bahia, essa prática teve início apenas no século 19.

Segundo a tradição oral local, a festa em louvor ao Senhor dos Passos teria começado em 1852. Na época, houve a chegada à cidade da imagem encomendada em Portugal por negociantes de diamantes.

Os principais bens culturais associados à Festa atualmente são a Marujada, os Reisados, o grupo das Baianas, a Capoeira e o Jarê.

“A Festa do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos de Lençóis é ainda singular por ser uma festa católica organizada e liderada incontestavelmente por uma sociedade laboral e por abarcar e congregar adeptos de várias religiões, inclusive o Jarê, em si mesmo, uma expressão religiosa única e própria da Chapada”, concluiu a relatora Desirée Tozi.

Em novembro, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou o o tombamento do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, em Lençóis (BA). O local é o templo de Jarê mais antigo ainda em funcionamento no Brasil.