Foto: Vagner Souza / Ps Notícias
Foto: Vagner Souza / Ps Notícias

A presença de nitrato e cobre em amostras coletadas na praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador, acende um alerta para possíveis riscos à saúde humana e impactos à vida marinha. Especialistas alertam que a contaminação afeta diretamente a população e os organismos marinhos. Os danos podem ter caráter permanente.

De acordo com o biólogo José Amorim, pesquisador do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração da Baía de Todos os Santos (PELD-BTS) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) a contaminação pode afetar as pessoas de forma direta, pelo contato com a água, ou indireta, pelo consumo de organismos marinhos expostos às substâncias.

“A contaminação direta no contato da superfície corpórea com aquela água empossada, que fica no recuo da maré, nas poças e piscinas de maré[…]. Em elevadas concentrações, como já foi detectado pelo Inema, podem causar algum tipo de dermatose, irritação na pele e desconforto por conta do cheiro muito forte da substância, mas não há maiores danos para o humano nesse contato direto”.

O biólogo afirma ainda que a ingestão da água contaminada pode gerar inflamação do trato digestório humano, causando problemas fisiológicos e metabólicos associados a essa ingestão. O risco considerado mais significativo, no entanto, está relacionado ao consumo de peixes, crustáceos e outros organismos marinhos que tenham sido expostos às substâncias.

“O risco indireto é o consumo de organismos marinhos, como peixes, siris e outros invertebrados, que tenham sido capturados com essas elevadas concentrações. Nesse caso, as substâncias vão diretamente para o trato digestivo e podem causar inflamação, intoxicação aguda, com danos maiores dependendo da condição física de cada pessoa. Um idoso, uma criança ou uma pessoa com comorbidades pode sofrer um dano maior”, afirmou Amorim.

Medidas urgentes

Para o especialista, o primeiro passo para reduzir os impactos ambientais é interromper a fonte de contaminação. Caso isso não aconteça com a devida urgência, os efeitos podem se tornar persistentes no ecossistema.

“O primeiro ponto é que o aporte dessa contaminação precisa ser interrompido. Se ele não é interrompido, o dano passa a ser crônico. Se ele não é interrompido, a exposição dos organismos marinhos todos os dias resulta em mortandade e assimilação destes compostos pelos organismos marinhos”, pondera.

José Amorim esclarece ainda que, se a fonte do contaminante for eliminada, o próprio movimento das marés pode ajudar na recuperação do ambiente.

“Como se trata de um ambiente entremarés – sujeito ao fluxo diário das massas de água, e aí obviamente precisamos saber o volume dessa contaminação que foi despejada naquele ambiente para poder estimar de fato como o ciclo de maré vai limpar aquele ambiente. – Por ser um ambiente de fluxo de maré, dependendo do volume de contaminação, o ideal é isolar a área para o contato humano, esperar as trocas de maré sucessivas, e monitorar constantemente até que o ambiente volte à normalidade”, explica.

Impactos severos à fauna marinha

Além dos riscos à saúde humana, a contaminação também pode causar impactos severos na fauna marinha da região. Em ambientes onde a água fica acumulada após a maré baixar, a concentração das substâncias tende a ser maior, o que pode levar à morte rápida de organismos.

“Essas elevadas concentrações na água empoçada causam mortandade imediata de organismos marinhos. Principalmente o nitrato, que em altas concentrações em locais com água condensada provoca hipóxia fisiológica. Que é o processo fisiológico da hemoglobina nos organismos marinhos deixa de cumprir seu papel plenamente. Ela oxida e as trocas gasosas ficam comprometidas, e os organismos vem a morrer quase que imediatamente”, explica.

Quando a maré sobe novamente, ocorre um processo de diluição dessas substâncias. Mesmo assim, os animais podem permanecer intoxicados.

“Quando a maré enche, há diluição daquela massa de água e as concentrações diminuem, mas os organismos que sobreviveram podem ficar severamente intoxicados e ter processos metabólicos comprometidos”, afirmou.

O especialista destaca ainda que o cobre, apesar de ser um micronutriente importante para diversas formas de vida, pode se tornar tóxico quando presente em grandes quantidades no ambiente.